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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Você sabe usar as aspas numa redação?


          Corrigir redações permite que eu observe os erros mais comuns que os alunos cometem e que são inadmissíveis num exame. Pretendo começar uma série de postagens que evidenciam esses erros para que os alunos o evitem. Não vou falar de coisas banais, como erros ortográficos ou vícios comuns de linguagem. Pretendo evidenciar falhas que são pouco conhecidas e discutidas, mas que podem prejudicar o candidato na hora da prova.
          O primeiro desses casos é o uso das aspas. Você sabe para que ela pode ser usada? E em que casos ela é aceitável num texto expositivo-argumentativo, isto é, numa dissertação, que é o gênero mais cobrado nos exames de admissão?
          As aspas podem ser usadas nos seguintes casos:

IRONIA
Caso que jamais deve ser usado num vestibular ou concurso. É quando você diz uma coisa querendo dizer o contrário. A política de inclusão social daquele governo era “sensacional.” Lembre-se de que a dissertação é um texto técnico e sua linguagem é conotativa, portanto, uma ironia, que é uma figura de estilo típica de textos literários, não é adequada.

NEOLOGISMOS, GÍRIAS OU REGIONALISMOS
Use-as com cuidado, de preferência se a expressão não for criação ou fala do próprio candidato. No mundo dos “gamers”, um novato é chamado de “newbie.” Perceba que aqui os termos têm a função de explicar ao leitor os significados das gírias, portanto elas são aceitáveis, desde que entre aspas.

CITAÇÕES
Use com tranquilidade, aqui não tem como errar. Sempre que citar uma fala, um slogan, um lema, uma música, use as aspas se a transcrição for literal. Mas não as use se seu discurso for indireto. Vejamos os dois casos. “A imaginação é mais importante que o conhecimento”, disse Albert Einstein. Ora, se a citação transcreve palavra por palavra como foi dito por Einstein, então deve estar entre aspas. Paulo Freire já nos alertava que, mais do que transmitir conhecimentos, a educação deveria criar possibilidades para sua construção. Aqui o candidato cita, com suas próprias palavras, o que disse o autor da ideia, portanto não se deve usar aspas.

TÍTULOS (DE OBRAS)
Sempre que citar um livro, uma música, um filme, enfim, um trabalho que tenha um nome, essa obra deve aparecer entre aspas. A estátua “Davi”, de Michelângelo, é uma dos mais belos exemplos de perfeição artística. 

MARCAS DE ORALIDADE E PESSOALIDADE
Esse é um caso que tenho visto com frequência em redações e o principal motivo de eu ter criado este artigo. As marcas de oralidade e pessoalidade são condenáveis numa dissertação. Esse gênero pede um texto impessoal, portanto é inadmissível que o aluno use frases como: Se você se distrai, pode sofrer um acidente. Numa conversa, ou seja, na linguagem falada, o uso de “você” é perfeitamente normal e o interlocutor sabe que essa palavra significa “alguém”. Mas numa redação esse recurso não pode ser usado. Em lugar disso, deve-se escrever algo como: Quando o indivíduo se distrai, pode sofrer um acidente. No entanto é frequente que o aluno use as aspas para tentar mascarar algumas dessas marcas, tentando fazê-las se passar por neologismos, gírias ou regionalismos. Duplo erro: o examinador saberá ver a diferença e a redação perderá pontos pelo uso indevido das aspas e das marcas de oralidade ou pessoalidade. Segundo Nietzsche, as pessoas estão cada vez mais “virando de costas”, ou seja, ignorando o mundo real para defender sua verdade absoluta. Nesse exemplo, o autor mencionado não usou essas palavras, portanto não é uma citação. O aluno tentou usar suas próprias palavras para resumir a ideia de uma forma mais acessível, isto é, usou uma expressão popular que pode ser entendida como uma gíria ou regionalismo. O problema é que essa expressão é do autor da redação, não de Nietzsche. Nisso, dois erros foram cometidos: a marca de oralidade e o uso indevido das aspas. O que mais entristece o professor é ver que o trecho poderia simplesmente ser suprimido, já que o aluno explica depois o que quis dizer: Segundo Nietzsche, as pessoas estão cada vez mais ignorando o mundo real para defender sua verdade absoluta.

Resumindo…

  • Ironia – Nunca use numa dissertação, com ou sem aspas.
  • Neologismos, gírias ou regionalismos – Use, com aspas, quando não for invenção sua.
  • Citações – Use aspas se for reproduzida literalmente, não as use se for adaptada (com suas palavras).
  • Títulos (de obras) – Sempre use aspas para mencionar o nome de uma obra.
  • Marcas de oralidade e pessoalidade – Não as use, com ou sem aspas.


          Só lembrando que essas orientações se aplicam aos textos dissertativos, que são textos técnicos, impessoais. Se a prova lhe pedir uma crônica ou um conto, as regras são outras, pois esses gêneros são menos “engessados”, o que dá maior liberdade criativa ao candidato.
Uma boa redação para você.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Redação - Marcas de Oralidade


Com as proximidades dos exames vestibulares, vou começar uma série de postagens com dicas e alertas que devem beneficiar os candidatos a uma vaga na universidade. Tenho corrigido muitas redações e pretendo apontar os erros mais frequentes cometidos pelos alunos. O primeiro desses erros é o uso de marcas de oralidade. É um tema amplo, pois há várias formas de cometê-lo.

Uma introdução.



A linguagem escrita não é a mesma que a linguagem falada. Um texto escrito é muito diferente de uma fala, mas não por pedantismo ou vaidade. É que a linguagem escrita permite o cuidado de planejar, estruturar, revisar e, com isso, há uma maior cobrança do leitor pelas regras gramaticais sobre o texto escrito. Na linguagem oral, mesmo em falas planejadas como aulas e palestras, certos erros são considerados aceitáveis, como pequenos erros de concordância, falta de paralelismo, gírias ou informalidade.
Mas não é dos erros gramaticais que vamos tratar aqui. Há uma diferença mais sutil entre o texto escrito e o falado que às vezes não é percebido pelo aluno. As marcas de oralidade são detalhes que cabem no texto falado, mas que tornam o texto escrito inadequado, mesmo que não pareçam ser erros. Algumas vezes a gramática até pode estar impecável, mas a marca de oralidade se faz presente, estragando todo o conjunto.
Mas o que são, então, essas marcas de oralidade?
Bom… Este texto aqui não é uma redação de vestibular, portanto eu me permito certas liberdades que não seriam aceitas numa dissertação. Caso contrário, aquela pergunta ali em cima já poderia ser considerada uma marca de oralidade. É uma pergunta retórica, recurso válido numa conversa, mas que não cai bem na redação.
O aluno é convidado a dissertar, por exemplo, sobre a pena de morte. Imaginemos então a seguinte redação:

No Brasil não há pena de morte. Mas por que não podemos implantá-la aqui? Tudo começa na Constituição. De acordo com ela, a pena de morte foi abolida no Brasil e só tem previsão de aplicação para crimes militares em caso de guerra. Ainda assim, há protocolos bastante específicos para seu uso. Mas, uma emenda não poderia mudar isso? Não, é uma cláusula pétrea.

Vejam que não há erros gramaticais evidentes no trecho acima, mas há duas perguntas retóricas. Para quem não sabe, pergunta retórica é uma interrogação que não tem como objetivo obter uma resposta, mas sim estimular a reflexão do individuo sobre determinado assunto.  Embora seja muito usada por professores e palestrantes, não é aceitável colocá-las numa redação. A dissertação não é uma aula. É um texto escrito de formato bastante rígido. Deve ser objetivo, e a pergunta retórica não condiz com sua estrutura.
Vejamos como ficaria o texto sem as perguntas retóricas:

No Brasil não há pena de morte e a Constituição nos impede de implantá-la. De acordo com o texto da Carta Magna, a pena de morte foi abolida no Brasil e só tem previsão de aplicação para crimes militares em caso de guerra. Ainda assim, há protocolos bastante específicos para seu uso. Sendo essa uma cláusula pétrea, não pode ser mudada nem por emenda.

Percebam como esse texto fica mais objetivo e impessoal.  Essa pessoalidade é que deve ser evitada na redação. Outra forma parecida de se incorrer em oralidade é conversar com o leitor, tratá-lo por você ou tu. Ao invés disso, prefira usar sujeito indeterminado ou voz passiva.
Vejamos um exemplo, supondo que o tema seja segurança pública:

É preciso haver maior policiamento. Você não pode ficar à mercê dos bandidos enquanto espera um ônibus, por exemplo.

Em lugar disso, prefira:

É preciso haver maior policiamento. O cidadão não pode ficar à mercê dos bandidos enquanto espera um ônibus, por exemplo.

Fácil corrigir, certo?
Um deslize mais sutil é quando o aluno suprime trechos da frase, elementos que poderiam ficar subentendidos numa conversa, mas que na linguagem escrita podem deixar a frase incompleta ou até sem sentido.
Imaginemos uma redação em que o tema seja a grande quantidade de incêndios que vêm destruindo o patrimônio cultural do Brasil nos últimos anos:

O incêndio no Museu da Língua Portuguesa não causou tantas perdas porque o acervo era imaterial, informação digital que pode ser recuperada. Já o Museu Nacional é muito grave.

Quando duas pessoas conversam sobre esse assunto, não há dúvidas de que a intenção é dizer que O INCÊNDIO ocorrido no Museu Nacional foi muito grave. Mas na redação isso não pode ser omitido. O aluno não pode dizer que O MUSEU É GRAVE. Isso é marca de oralidade. O aluno pensa que se não é errado falar assim, então também não há problema em escrever do mesmo jeito. Engana-se. É um problema, sim, e o fará perder pontos, pois é uma característica observada pelos examinadores.
Por fim, outra marca de oralidade bastante comum é o uso de gírias ou expressões inadequadas. No exemplo, pensemos num tema como corrupção:

Percebemos, por esses dados, que os políticos não estão nem aí para a população. Estão se lixando se as crianças ficam sem merenda na escola, desde que o dinheiro vá encher os bolsos deles.

“Não estão nem aí”, “estão se lixando”, “encher os bolsos”. Evite isso tudo. Busque formas mais impessoais de dizer a mesma coisa. Não é pra você conhecer palavras difíceis que os professores pedem que enriqueçam o vocabulário. É para saber como dizer a mesma coisa de outra forma, mesmo que use palavras corriqueiras.

Percebemos, por esses dados, um completo descaso da classe política para com o povo que supostamente representam. Não se comovem com a falta de merenda nas escolas. O que importa para eles é continuar desviando as verbas para seu próprio benefício.

Tem alguma palavra difícil aí? Você precisou recorrer ao dicionário para entender o que está escrito? Claro que não. Apenas usei um vocabulário mais rico para reescrever o trecho de forma mais formal. Podemos até imaginar que o primeiro exemplo seja o rascunho, e que o segundo seja a versão definitiva, passada a limpo na folha de resposta. O aluno percebeu que estava inadequado e corrigiu a tempo.

Espero ter ajudado você a se preparar para a prova, caro leitor. Pretendo colocar muitas dicas mais para que arrase na redação.

Um grande abraço.

Professor Rafael.