segunda-feira, 29 de maio de 2017

Isto, isso ou aquilo?

É muito comum haver confusão entre esses três termos. Alguns dizem que não há diferença entre “isto” e “isso”, mas é um equívoco: eles são, sim, diferentes, e há regras para escolha de um ou de outro.

Para melhor entendimento, é preciso esclarecer que esses termos pressupõem três diferentes posições geográficas possíveis num diálogo. Chamemos de primeira posição (aqui), aquela do interlocutor que está com a palavra. A segunda posição (aí) é a do interlocutor que ouve, aquele que recebe a informação. A terceira posição (ali) é qualquer lugar distante tanto do falante como do ouvinte.

Vamos ilustrar para que fique mais claro.



Agora, devemos entender que o locutor que fala, o falante, é nosso ponto de referência primário. Ele vai se referir a um objeto qualquer.

Se esse objeto está com o próprio falante, ou seja, na posição 1, ele vai se referir ao objeto como isto. Logo, ele diz isto aqui.

Se o objeto está próximo do ouvinte, na posição 2, o falante irá se referir a ele como isso, ou seja isso aí.

Por fim, se o objeto está na posição 3, distante tanto do falante como do ouvinte, ele vai tratá-lo por aquilo, ou aquilo ali.

Perceba como não faz sentido dizer "isto aí", ou "isso aqui", da mesma forma que não se diz "isso ali", ou "aquilo aqui".

Caetano estava certíssimo ao cantar “Isto aqui, ô ô / é um pouquinho de Brasil iá iá”, porque o país e o povo a que ele se referia estavam próximos dele, na posição 1, o interlocutor falante.

Mas identificar o uso do "isto", "isso" e "aquilo" em relação à posição geográfica é fácil. A confusão, mesmo, ocorre quando temos de nos referir a termos da oração, em relação a sua posição temporal.

Mas há um truque fácil que pode simplificar tudo, e vou lhes ensinar.

O objetivo aqui é o falante apresentar ao ouvinte uma frase. Essa frase será substituída por isso, isto ou aquilo.

Pois imagine que essa frase seja como um presente que o falante vai entregar ao ouvinte. Se ele ainda não entregou o presente, significa que ainda está na mão dele, junto com ele, ou seja, na posição 1, aqui.

Se ele já entregou o presente, então a frase está com o ouvinte, na posição 2, aí.

Mas se é uma frase que foi entregue há muito tempo e que está sendo retomada, então não está mais com o falante nem com o ouvinte. Está na posição 3, ali.

Ficou confuso? Não se preocupe. Com exemplos fica mais fácil.

Primeiro caso, presente ainda não entregue.

— Só vou te dizer isto: não confies em ninguém.

“Não confies em ninguém” é o conselho que o falante dará ao ouvinte. É o presente. Mas antes de dá-lo, ele se refere ao presente como isto, porque ainda está com ele, isto é, na posição 1.

Agora o segundo caso. Primeiro ele dá o presente, depois se refere a ele.

— Não confies em ninguém. É isso que posso te dizer.

O conselho (presente) já havia sido entregue. Já está com o ouvinte. Portanto, na posição 2.

Para exemplificar o terceiro caso, vou ter de fazer um diálogo um pouquinho maior.

— Por que não confiaste em mim?
— Mas tu mesmo me disseste pra não confiar em ninguém!
— Ah! Aquilo foi por impulso, no calor do momento. Não se aplica a mim. Eu sou de confiança.

Como podem ver, o presente (o conselho de não confiar em ninguém) já havia sido entregue há bastante tempo. Está longe de ambos. Não está com o falante (por não ter ainda entregue) nem com o ouvinte (por ter acabado de recebê-lo), mas em algum lugar distante de ambos, em suas memórias. Logo, na posição 3, ali.


Raciocinando dessa maneira fica fácil deduzir quando usar um ou outro, não é mesmo? Lembrem-se, então, que essas regras (essas, porque já as entreguei a vocês) também valem para  outros pronomes demonstrativos, como este/esse/aquele ou esta/essa/aquela.

Um comentário:

  1. Perfeita explicação. Essa confusão é bastante comum e muito explorada nos concursos públicos.

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